O tênis da academia na sala diz muito. Diz sobre o hoje. Diz sobre a sexta-feira. Diz sobre a pandemia. Diz sobre a gente se adaptar. Sobre flexibilidade, garra e força de vontade. Diz sobre a vida. A vida é assim.
É sexta-feira, são oito horas da manhã e já estou descalça. Descalça pois terminei a atividade física do dia, que começou às sete. Às sete me encontrei virtualmente com meu professor na sala de casa, um tanto quanto apertada, para me exercitar. Exercito-me usando alguns equipamentos, uns comprados como os halteres, a bola, os elásticos e outros adaptados como a cadeira da sala de jantar, o sofá e sim, até cabo de vassoura já virou equipamento de malhar [ quem nunca, não é?]. Com tudo pronto, ali executo os comandos que o professor [sentado na sala da sua casa] me pede e demonstra através da telinha do celular. Pulo corda, agacho, levanto. Levanto o corpo, levanto o peso. Sinto o suor escorrer. Pulo agachando e levanto pulando. A sensação é de não ter mais ar, respiro ofegante com o coração pulsando em sua velocidade máxima. Ele me oferece um minuto para respirar. Deito no colchão e exercito também os músculos do tanquinho. A Duda, sem entender as minhas façanhas, senta à minha frente e fita um olhar desconfiado. Quando o exercício é no colchão, ela entende que a hora é de brincar e vem correndo e latindo em minha direção. Tê-la por perto torna este momento infinitamente mais prazeroso ao modo que só de observá-la encho o meu coração de amor.
O sol da manhã invade o espaço e esquenta ainda mais o meu corpo. Deixo a porta da varanda aberta para sentir o ar fresco da manhã. Nesse momento, me deparo com um jeito um tanto diferente de fazer o que venho fazendo nos últimos anos, de forma quase que religiosa. Todos esses anos feito sempre dentro de salas de exercício [vide academia], cheios de gente e de todos aqueles aparelhos de puxar pesos. Era até então a única forma conhecida e por sinal bem-quista. Até que a vida nos coloca em uma encruzilhada e temos que repensar. Não imagino se cogitaria encontrar uma nova forma se a vida não tivesse vindo com essa força toda para mandar, pois até então tudo ia bem, obrigada.
No início fui bastante resistente: “não tem como”, “não tem espaço”, “não vai trazer o mesmo resultado”. Aqui nos deparamaos com algo que já sabemos, mas agora ficou escancarado para todos nós: “Caramba, como é difícil mudar”. Depois de muito “mimimi”, a flexibilidade mostrou que dá e acabou com todos os meus argumentos para não tentar. A resistência decidiu ir embora. Tratei de me reorganizar e preferi admitir que esse vírus veio mesmo é para ensinar.
Então vamos lá. Como me adaptar? Em um dia sentada, tomando o meu café da manhã, observei a disposição dos móveis naquele ambiente que teria que ser reorganizado. Depois de muito refletir, encontrei a forma que eu poderia mudá-lo para aderir a esse novo cenário.
A mesa de centro teve que ser colocada à venda. O momento pedia mais espaço e por consequência de tantas incertezas, um dinheiro extra. O baú do quarto foi para um canto da sala e virou porta-pesos, caneleiras e elásticos. O sofá ganhou um novo enconsto de cabeça: a bola de pilates [desculpa mas não achei outro local para guardar]. O tapete saiu de cena, visto que ele dificultaria os movimentos. A mesa do jantar empurrada um pouco mais pra lá para não atrapalhar. Os movimentos de deslocamento exigem uma visita até o quarto, mas ainda bem que dá.
Os dias foram passando e essa nova forma foi se instalando. O que era novo, agora passou a ser normal, ou novo normal.
Bom ou ruim? Diferente.
Certo ou errado? Novo.
O antigo ou o novo? O que melhor se adaptar.
Adaptada, posso ver a situação com outros olhos. Posso levantar uns minutos mais tarde, afinal o trajeto é do quarto para sala. Quase uma sensação de teletransporte, quando pisco já estou lá. O único suor que entro em contato é o meu, e cá entre nós, isso é uma bendita proteção. Nem se quer preciso me maquiar e quando acabo, posso permanecer ali mesmo, descalça e deitada, sentindo o diminuir dos batimentos do coração. A dois mestros dali, vejo a cozinha e o ronco da barriga me pede um farto e bom café-da-manhã, aquele que antes sempre era o motivo de eu me atrasar. Claro que tenho que recolher os equipamentos para rever minha sala, mas nada que enquanto o café passa, não dê tempo de fazer.
Hoje, gosto desse novo jeito e agora penso: “Caramba, como é bom mudar”.
Após dois meses vivendo assim, o professor perguntou se eu queria voltar. Mas a resposta agora é: “Não, vamos deixar assim como está”. Gostei de conhecer o novo que me esperava e que transformou não só o meu corpo mas também a minha perspectiva do todo. Basta sermos menos resistentes e irmos de encontro ao desconhecido que vemos que a vida tem muito mais para nós, deixando a lição de que não mudar pode ser a maior prisão de tudo aquilo que ousamos realizar.
Da pandemia para a vida.
TCCP ?


Parabénssssss Filha, seu texto está incrível, prende nossa atenção, faz pararmos pra pensar em cada momento da vida,nos envolve e nos mostra que podemos mudar e acreditar que podemos ser melhorer.Posta mais amei….Te amo muitoooo Parabénssssss ????????????????????????????????
Thais, meu amor, mais um texto incrível. Impressionante como você consegue escrever um texto flui, que é uma delicia de ler.. parece que estou assistindo a um filme, é incrível a força de suas palavras, mas ao mesmo tempo a forma leve, descontraída que você consegue harmoniza-las. Lendo seus textos, sempre me emociono, dou risada, choro.. enfim eu consigo sentir de verdade. Que talento que você tem, impressionante!!! Me faça um favor.. escreva escreva e escreva.. é um presente muito especial para nós seus leitores…Um beijo do seu pai que morre de orgulho e admiração de você!!!
O texto está sensacional, muito muito bem escrito, prende com detalhes e expressa realmente a pureza desse pensamento!
A reação da perspectiva das mudanças está dentro de cada um, você decidiu extrair a melhor parte desse “novo” e “diferente”. Também tenho o mesmo pensamento e penso que faz parte de nós de engajar os outros que ainda estão com a visão que arremete ao passado, ao “novo velho”!
Parabéns pelo texto, excelente!
Olá Gui. Fiquei emocionada com seu comentário. Palavras lindas e concordo com o que disse. Muito obrigada !
Olá Thaís
Não conhecia este seu lado poetisa escritora. Sua Alma Clarice Lispector ou Cora Coralina ou tantos outros. PARABÉNS!!!
Continue no ofício… O Tema é muito atual e foi muito bem abordado
Adoro o seu estilo de escrita. Seus textos não só prende a atenção do leitor mas ao mesmo tempo são muito inteligentes, te faz pensar sobre assuntos da vida que são super interessantes, de coisas simples do nosso dia-a-dia que na correria a gente nem percebe e nem para pra pensar, e isso marca. Sua escrita é marcante!!! Você escreve muito bem, continue nesse caminho!!! Mal posso esperar pelos próximos!!!
Parabéns Thaís! Lindo texto !!
Amei , admiro vc , continue escrevendo, tens muitos talentos ! Bjs ❤️